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Bloqueada

Não sei direito como começar este texto, então optarei pela extrema sinceridade. Talvez seja esse o caminho de todas as coisas boas: sinceridade, principalmente consigo mesmo.

No final de agosto (ou início de setembro, não me lembro muito bem), tive uma sobrecarga de pensamentos. Pelo menos, foi assim que chamei o “caso”. Tinha tantos “e se” na minha cabeça, tanto receio por tomar o caminho errado e me arrepender depois, tanta dúvida que simplesmente estaquei. Parei imediatamente como se eu fosse um carro a 100km/h e acionasse subitamente o freio. Senti o solavanco, percebi os carros que vinham atrás, percebi o espanto de todos aqueles que me cercam, mas nada importou. Momentaneamente, joguei tudo para o alto (uma bela frase alternativa para o termo “surtei”).

A grande verdade é que eu amplifiquei em mil as cabeças dos dragões que eu via. Maximizei o problema a décima potência e não notei o mostro do medo me atando os pés e as mãos.

Este é um relato de um enorme bloqueio criativo. Sou um tanto dramática para descrever, ou talvez não. Acredito que aqui o exagero caiba perfeitamente bem pois, em minha mente, foi o que de fato aconteceu.
Cheguei a pensar em desistir várias vezes. Continuamente. O pensamento martelava com força cada vez que uma fagulha de reação surgia. Aquela satisfação que eu sentia ao escrever, a alegria pura e o carinho por um bom trabalho estavam soterrados por algo que até agora não me é inteiramente claro.

Fiz um ótimo trabalho em ignorar a situação por um tempo, até que apareceu a saudade. A sensação de incompletude, a falta de um membro, a dor fantasma de algo que deveria estar ali, mas não estava. Pareciam pequenos tapas na cara, e eram. Impulsos espasmódicos da vontade que ainda urgia em algum lugar escuso. Novamente, eu dramática, não consigo evitar.

Pouco a pouco a vontade ganhou mais força e, em algum ponto, em algum momento, ela conseguiu encarar o enorme dragão que a subjugou.

Às vezes precisamos só de tempo. Às vezes, de outras coisas. Hoje vejo o dragão ao meu lado. Não está muito feliz com a decisão que tomei, a de voltar a escrever. Ele me observa ressabiado, com certa arrogância, certo de que toda minha valentia é temporária. Contudo, retribuo o olhar calmamente. O olho com carinho sabendo que ele é parte de mim. Uma parte doída e que tem medo e digo: “Vou escrever por enquanto, porque ainda gosto e me faz bem. E você, como parte de mim, vai me ajudar a ser melhor, e eu vou te ajudar a não temer”.

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